Das Coisas Possíveis
Existem pessoas diferentes. Não são mais inteligentes ou bonitas. Também dinheiro não é a questão. É outra coisa. Uma coisa que não sei definir exatamente: um carisma, um dom, um jeito de olhar. Uma força magnética que nos atrai, que nos prende, que nos subjuga.
Talvez seja um feitiço, uma praga de fada madrinha: “Serás por todos cobiçado! Essa será a sua danação!”
É fácil amar essas pessoas, pois quem não as amará? É conhecê-las e apaixonar-se. Perdidamente. De perdição.
Quem sabe seja algo hereditário, algum inprint genético, um gene na longuíssima cadeia de DNA. Que se tem ou não. Não se pode comprar nem aprender. Ou então um saber atávico. Um instinto velado. Quem sabe ao certo? Eu não sei. Eu me perco em seus caminhos tortuosos. Eu me iludo.
Os sábios os olham e os admiram, mas não se deixam seduzir. Até pensam, quando as vêem de relance, na agitação do horário de almoço: “Que mulher maravilhosa! É a encarnação da perfeição.” E elas se admiram: “Ele é tão másculo e inteligente! E tão romântico! Quem dera…” Mas mantêm uma distância segura para não serem tragados por esse furacão, essa força da natureza. Se encontrar alguém assim, não se aproxime, eu digo. Aprecie como se aprecia uma obra de arte. A uma certa distância. Segura para você. Segura para ela. Conheci um homem assim algum tempo atrás. Um homem de projetos. Seu passatempo é seduzir. Ou esta é a sua natureza? Ou a sua pena? Depois da sedução consumada, o que fazer?
O fascínio é tão poderoso que nem quando o outro te fala: “Vai! Não te quero. Não tenho nada para ti!”, você não arreda pé. Fica a esperança. Miudinha. Brasa adormecida sobre as cinzas, aguardando o vento benfazejo que a reavive. E ela queima.. E queimando consome. Mas mesmo assim você fica, fascinado.
Depois de anos, a cegueira que havia, arrefeceu. Meus olhos clarearam. Vi que era mesmo impossível. Que nada realmente nos ligava. Não havia confiança nem lealdade. Nunca houve. O que me seduzia também me sufocava. Vi o descompasso da relação: um que só cede e outro que eventualmente concede. Assim era a vida. E queimava a pequena brasa acessa varrida para fora.
Depois conheci outro homem. Uma pessoa muito, muito interessante. Às vezes, um tanto teimoso. Mas um homem de realizações. Olhei para ele e vi uma pessoa de verdade. Mas ele ia tão perdido em seu sonho. Tão enredado em sua ilusão, como aquele da poesia de Manoel Bandeira, que nem me viu passar. Estava fascinado por uma versão feminina do que me consumiu um dia. Sua Capitu com olhos de ressaca. Pena. Poderia ter sido realmente bom. Tínhamos muita coisa em comum.
Próximo!!!
Professora de História, mestre em Arqueologia e fã de Star Trek e Star Wars. Fora do tempo, observo o eterno repetir da vida sem ilusões, mas com um pingo de esperança. Quanto mais as coisas mudam, mais elas ficam iguais. 